Uma crônica envolvente de 1995: um Fiat Spazio, um acidente e a jornada de um canceriano em busca de sentido entre churrascos, culpas e redenção.
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Uma crônica envolvente de 1995: um Fiat Spazio, um acidente e a jornada de um canceriano em busca de sentido entre churrascos, culpas e redenção.

Era um domingo de Páscoa, o ar morno de abril carregado com o perfume doce de chocolate derretido e o eco distante de risadas escapando pelas janelas entreabertas. Eu segurava o volante do Spazio 1984, um Fiat 147 valente, sentindo o couro quente sob as palmas das mãos – aquele motor 1.300 ronronava baixo, um dragãozinho manso que carregava minhas tardes de juventude. O banco grudava nas minhas coxas, e o sol, filtrado pelas copas tortuosas das árvores do quarteirão, brincava no para-brisa em reflexos dourados. Meu primo, esparramado no assento ao lado, cantarolava algo entre um refrão do Legião Urbana e um jingle de refrigerante dos anos 80, enquanto o rádio chiava, perdido entre estações. Estávamos soltos, leves, como se o mundo fosse só aquele asfalto quente e a promessa de um feriado sem fim.

A rua pulsava com vida. Crianças corriam, os ovos de Páscoa embrulhados em papel alumínio reluzindo como pequenos tesouros nas mãos suadas. Mais adiante, o som de um churrasco se erguia – o crepitar da carne na brasa, o tilintar de garrafas de cerveja, vozes que se embolavam numa sinfonia caótica e quente. Eu guiava devagar, quase hipnotizado pelo ritmo da tarde, quando um vulto cortou o canto do meu olho. Um menino, uns dez anos, magrelo, vestindo uma camiseta do Batman tão desbotada que o símbolo parecia um borrão. Não sei se ele correu atrás de uma bola ou se o sol o cegou tanto quanto a mim. O impacto veio como um soco abafado, seguido do estalo seco do farol esquerdo do Spazio se estilhaçando. Meu coração virou um tambor descontrolado, e o tempo se dobrou, lento e pesado.

Desci do carro com as pernas bambas, o cheiro de gasolina misturado à poeira subindo como um aviso. O menino estava no chão, esfregando o braço, os olhos arregalados, mas vivos. Um roxo começava a florescer na pele dele, uma marca escura que parecia gritar contra o cinza do asfalto. Meu primo, com aquele instinto afiado de quem cresceu entre VHS de filmes de ação, sussurrou: “Bora daqui, antes que o quarteirão vire contra a gente”. E eu fui. O Spazio roncou rua acima, o farol quebrado piscando como um olho cego, e o silêncio dentro do carro era mais alto que o motor. Olhei pelo retrovisor, e o menino ficou lá, uma silhueta pequena contra o fundo de fumaça e risadas. Chegamos em casa em menos de dois minutos – a mesma casa onde nasci, onde o portão de ferro range como um lamento velho, um juiz mudo que me encarava enquanto eu fechava a porta.

Mas o vazio veio atrás de mim. Não era o som do churrasco que ainda ecoava ao longe, nem o calor que subia do chão. Era um peso que rastejava pelo peito, uma voz sem forma que perguntava: “E agora?”. Sentei no sofá puído da sala, o ventilador zumbindo como um mantra quebrado, e o roxo no braço daquele menino dançava na minha mente. Meu primo acendeu um cigarro e me deu, o cheiro acre se misturando ao da Páscoa, e disse: “Relaxa, ele tá bem”. Mas eu não relaxei. Algo em mim – talvez aquele dragão teimoso que carrego desde o berço – rugiu baixo, exigindo que eu voltasse.

E voltei. O Spazio rangeu de novo pelo quarteirão, o farol torto lançando uma luz trêmula na rua que já escurecia. O menino estava lá, sentado num banquinho de madeira, um copo de guaraná na mão e o braço marcado por aquele roxo que agora parecia um mapa. Ele me viu e sorriu torto, quase tímido, antes de dizer com uma voz fina: “Tá tudo bem, moço. Você não quis.” Aquelas palavras me acertaram como um raio quieto, e por um instante eu me vi nele – um garoto perdido num domingo qualquer, tentando entender o mundo. O pai dele, um homem de bigode farto e olhar que me conhecia desde os tempos de carrinho de rolimã, cruzou os braços. “Você, hein? Seu pai vai ficar sabendo disso.” E ficou. O sermão veio em ondas – a bronca cortante, o alívio de ver que o estrago era pequeno, e por fim um silêncio que pesava mais que o som das brasas crepitando ali perto. Pedi desculpas, o menino apertou o copo com mais força, e o churrasco seguiu, como se a vida tivesse encontrado o compasso outra vez.

Aquele Spazio, que em 1999 vendi por um sonho de Japão que desmoronou em papéis e promessas, ficou na memória como um farol – não o que quebrou, mas o que me guiou. Não era só um carro. Era um pedaço de mim, uma máquina de lata e sonhos que refletia um jovem de 18 anos tentando decifrar o certo, o errado, o humano. A crise japonesa, os contratos rasgados, o dinheiro que virou fumaça – tudo isso veio depois, como um roteiro de sci-fi que ninguém pediu. Mas naquele domingo de 1995, o que ficou foi o estalo do vidro partindo, o roxo que eu deixei no braço de um menino e o olhar que ele me devolveu – um espelho que dizia que a vida é frágil, mas teimosa o bastante para nos dar novos começos.

Eu me lembro do céu claro, do vento trazendo um cheiro de terra molhada que não explicava. Lembro do peso da culpa, que não fala alto, mas cava fundo, como uma raiz que não vemos crescer. Anos depois, já com o cabelo mais fino e o peito mais cheio, ouvi ecos daquele sermão em noites quietas, como se o pai do menino ainda me apontasse o dedo invisível. E há algo nisso, nessa dança entre o erro e a reparação, que me faz ouvir vozes antigas – de avós que falavam de destino, de mestres que ensinavam a liderar o mundo começando pelo próprio coração, de sombras que sussurram nos sonhos sobre quem somos quando ninguém vê.

Se a vida é uma estrada, como cantavam nas fitas cassete que arranhavam nos anos 80, então cada curva conta. O farol quebrado não foi só vidro – foi a luz que eu perdi e achei de novo, trêmula, mas minha. O roxo no braço daquele menino não foi só uma marca – foi o peso que carregamos até aprender a soltá-lo. E nós, máquinas tortas como aquele Fiat equipadinho, seguimos rodando, tentando não apagar os faróis dos outros – nem os nossos. Naquele dia, um dragão interior chorou e rugiu, sensível e feroz, buscando o norte que não explica, mas guia.

Eu, Alessandro Turci, deixo aqui este pedaço de mim. Um convite para olhar os faróis quebrados que carregamos, os roxos que deixamos e os que curamos. Que a gente cresça em todas as dimensões – na pressa das ruas, na pausa das noites, no grito dos erros e no silêncio das vitórias. Que a jornada, com seus pneus gastos e suas asas tortas, nos leve a um lugar onde o sucesso, a saúde, a proteção e a paz sejam o chão que pisamos. E que, como num sonho que não diz, mas ilumina, a gente encontre o caminho de volta para si mesmo.

Um forte abraço!

Alessandro Turci

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